Como uma deusa... desperta

Amada irmã sacode a poeira dos sapatos e deixa os butiás caírem todos, porque neste post vamos mergulhar num assunto polêmico mas ultra necessário. Certa vez li que para acordarmos era preciso um bom despertador daqueles que incomoda e muito,  mas nos auxilia a levantar e seguir em frente.
Então tira a Rosana da sala e vamos falar delas: as deusas. Bem, vamos adentrar neste assunto controverso pelas bases da mitologia greco-romana com o auxílio de Jean Shinoda Bolen, psicanalista junguiana e uma autoridade nesse assunto, ok?
Para quem não sabia, a mitologia que dá lugar ao nascimento das deusas e deuses é uma mitologia patriarcal que exalta a Zeus e os heróis. Era uma vez num tempo longínquo e comprovado arqueologicamente uma cultura de povos que tiveram religiões baseadas no culto à Mãe, porém houve invasões e por meio destas a introdução de religiões que exaltavam deuses guerreiros e teologias baseadas no paternalismo. Marija Gimbutas, professora de arqueologia na Universidade de Califórnia em Los Angeles, descreve a "Velha Europa", como uma civilização remontando ao menos 5.000 anos antes do surgimento da religião masculina, como um local em que havia uma cultura "matrifocal", pacífica, amante das artes, e ligada à terra e ao mar, que rendia o culto à  Deusa. As provas destas informações estão registradas nas pesquisas arqueológicas e mostram que na Europa antiga havia uma sociedade não estratificada mas sim igualitária, que foi destruída por uma infiltração de povos indo-europeus semi-nômades, que se deslocaram a cavalo, desde o norte. Estes invasores eram "patrifocais", amantes da guerra, orientados ideologicamente para o céu e indiferentes à arte.
Fica bem claro que houve uma época em que a força feminina era profundamente conectada à natureza e à fertilidade. Responsável pela criação e a destruição da vida. Após sucessivas ondas de invasões indoeuropéias iniciaram o destronamento da grande deusa. A deusa foi completamente suprimida e incorporada à religião dos invasores que impuseram a doutrina patriarcal. A Grande Mãe se converteu em uma esposa subordinada aos deuses invasores. Os atributos  de poder que originalmente perteciam às deusas foram expropriados e oferecidos a uma deidade masculina. Foram nos mitos que apareceu pela primeira vez a violação. A mitóloga Jane Harrison assinala que a Grande Deusa foi fragmentada em diversas deusas, cada uma delas com um atributo seu,  Ártemis a senhora das coisas da natureza, Afrodite do amor, Deméter da fertilidade e por aí vai. Segundo Merlin Stone, autora de "Quando Deus era uma Deusa" esta derrocada do culto à deusa foi completada definitivamente pelas religiões hebraicas, cristãs e muçulmanas.



As deusas então ganharam o segundo plano, assim como as mulheres na sociedade. Em seu texto Stone questiona "talvez devamos perguntar a nós mesmas até que ponto a supressão dos ritos femininos ocasionou a supressão dos direitos das mulheres?"
A grande deusa era venerada como criadora de vida e destruidora, como a natureza, e ela ainda existe como um arquétipo do inconsciente coletivo. As deusas gregas que representavam os seus atributos específicos eram menos poderosas que a grande deusa e mais especializadas em áreas exclusivas de atuação. Eram imagens de mulheres que tem habitado a imaginação da humanidade durante mais de três mil anos.
As deusas são representações das mulheres nesta sociedade patriarcal e seus possíveis comportamentos. São belas e fortes, cada uma tem aspectos negativos e positivos, e tinham pontos fracos como qualquer mulher. Afinal as deusas gregas também viviam como nós em uma sociedade patriarcal de deuses masculinos, que governavam os céus, a terra e os mares, assim como o mundo subterrâneo. Cada deusa se adaptava a esta realidade a sua maneira, juntando-se ou separando-se dos homens, sendo um deles ou se retirando ao seu próprio interior. Cada deusa era vulnerável em comparação aos deuses que podiam negar-lhes o que elas queriam obter e assim dominá-las.
As deusas são criações dos deuses, acho que é preciso irmos em busca do verdadeiro feminino, enterrado no coração de cada mulher, que está além das deusas e suas limitações, pois a mãe é infinita e eterna. Creio que este resgate é um chamado a todas nós e uma reflexão para que larguemos os estereótipos que vestimos socialmente e adentremos nos mistérios profundos da alma feminina que está além das deusas.  
Excerto de Jean Shinoda Bolen em " As deusas em cada mulher".


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